Os Temos da Moda
Desde o surgimento da humanidade, as roupas, mais que um simples utilitário, servem como expressão visual. Saiba como as vestimentas passaram do campo da tradição para a vida fashion

POR LETÍCIA DE ALMEIDA ALVES


“A questão da moda não faz furor no mundo intelectual”, assim Gilles Lipovetsky começa o livro O império do efêmero (1944, Companhia das Letras). E, de certa maneira, o autor, sessenta anos depois, continua tendo lá sua razão. Nem os desfiles de moda de Paris, Nova Iorque e Milão, nem mesmo Gisele Bündchen conseguiram fazer com que a moda fosse absolvida da auréola permanente do superficial, e, para alguns, até mesmo do ridículo. Não estamos aqui falando da moda como tendência, estilo, mas da moda como um fenômeno importante na esfera sócio-histórica e econômica do mundo. Assim, Lipovetsky continua: “a moda é relegada à antecâmara das preocupações intelectuais reais; está por toda parte: na rua, na indústria e na mídia, e quase não aparece no questionamento teórico das cabeças pensantes. Esfera ontológica e socialmente inferior, não merece a investigação problemática; questão superficial, desencoraja a abordagem conceitual; a moda suscita o reflexo crítico antes do estudo objetivo, é evocada principalmente para ser fustigada, para marcar sua distância”.

Mesmo relegada à antecâmara das preocupações intelectuais, a moda está por toda parte

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A filme O Diabo veste Prada (2006) foi sucesso de crítica e de público. Conta a trajetória de uma jornalista aspirante no traiçoeiro e deslumbrante mundo da moda. Durante o desenrolar da trama, a protagonista aprende as nuances dos códigos de vestimenta e conduta do mundo fashion

REPRODUÇÃO
A fabricação das vestimentas deu um salto quando foram inventadas as agulhas, por volta de 40 mil anos atrás

No filme O Diabo veste Prada, estrelado por Meryl Streep no papel da estilista Miranda Priestly, existe uma cena curiosa e que ilustra bem como a moda está incrustada no nosso look de cada dia – mesmo que nos consideremos alheios ao fenômeno. A personagem Andrea (Anne Hathaway) assistente de Miranda, enquanto ouve a poderosa chefe discorrer sobre algumas peças de roupa, deixa escapar um risinho meio escrachado como quem pensa “que futilidade! que besteira!”. Nesse momento, a chefona se vira para ela e diz algo como: “você, que se leva tão a sério e acha graça no que eu digo, quando escolheu esse suéter no seu armário, hoje de manhã, não percebeu que ele não é azul turquesa ou royal, é azul celúreo. Em 2002, Oscar de la Renta usou azul celúreo em sua coleção e, logo depois, Yves Saint Laurent também fez modelos desse mesmo azul. Essa cor foi trazida, aos milhões, para essas terríveis lojas de departamento que colocaram esse suéter em liquidação. E você, que escolheu ficar fora da moda, está usando uma peça que foi escolhida por pessoas que estão nesta sala”.

PRÉ-HISTÓRIA DAS VESTIMENTAS
Se hoje não se tem muito jeito de escapar da moda, nem sempre foi assim. Antes das bolsas Louis Vuitton e dos ternos Armani, o homem se contentava com uma boa pele de bisão com um buraco no meio, para enfiar a cabeça. O traje nem ao menos era recortado, não era macio e muito menos chique, apesar de se tratar de um casaco de pele – só passamos a usar casacos de pele com a pelagem do animal voltada para lado de fora no século XX. Sim, porque antes de tudo, a pele servia para proteger o Homo sapiens (que havia perdido boa parte de sua penugem) do frio. Já tinha pensado nisso?

IMPERADOR JUSTINIANO E SUA ESPOSA TEODORA
REPRODUÇÃOJustiniano I, imperador bizantino que reinou entre 527-565, usava roupas bem diferentes dos primeiros imperadores. Sua veste era de tecido dourado e bordada com desenhos florais. Presa por pedras, usava uma clâmide púr- pur a . Sua túnica tinha mangas estreitas ou usava uma dalmática, ambas incrustadas com jóias. Usava um tipo de coroa também adornada com jóias presas e pendentes em fios dos dois lados. A roupa tinha um ar eclesiástico, pois o imperador era um rei-sacerdote. Em Bizâncio, como na China imperial, as roupas eram hierárquicas. Outro toque imperial era o modo de se escolher a imperatriz. Através de uma espécie de concurso de beleza, com moças trazidas de todo o império. Foi dessa maneira que Justiniano escolheu Teodora. Ela era uma moça humilde, atriz e dançarina – profissões que a Igreja reprovava com veemência. Foi necessário se criar leis novas para que a moça se casasse com Justiniano. Nos mosaicos de San Vitale, em Ravena, vemos o casal chiquerésimo. A vestimenta de Teodora mostrava uma túnica branca e longa, adornada com uma faixa vertical recoberta de bordados. Outra faixa, chamada maniakis, era bordada com fois de ouro, pedras preciosas e pérolas. A imperatriz usava um cinto enfeitado com franjas na barra além de uma capa púrpura com a figura dos Reis Magos. Na cabeça trazia uma diadema mais bonita que a do imperador, com longos fios de pérolas. Nos pés, sapatos de couro macio, tingidos de vermelho e cuidadosamente bordados

O uso de peles não servia apenas para proteger o homem, mas também pelo exercício de poder

Ainda hoje, esquimós e povos siberianos modernos conservam métodos primordiais na produção das vestimentas, como a mastigação do couro para amaciá-lo

Essas primeiras vestimentas tinham a função de proteger; pois mesmo nas últimas culturas paleolíticas, o homem ainda vivia junto às geleiras que cobriam grande parte da Europa devido às sucessivas eras glaciais. Mas não podemos nos esquecer do lado mágico e ritualístico como enfatiza Miti Shitara, professora de História da Moda da faculdade Santa Marcelina: “Esse homem, ao vestir a pele do animal, incorpora em si a força deste. O uso de peles não servia somente para proteger o homem de intempéries de um modo geral, mas servia pelo exercício do poder. Quem pode se adornar com a presa de um animal, exibe um trunfo”. Tanto quanto quem exibe uma bolsa Prada exibe o poder de compra, de status etc. Concluindo, as primeiras vestimentas não surgiram por uma questão de pudor ou mesmo de estética, mas o homem descobriu inicialmente que, além de abater um animal em busca de alimento, ele podia usar seu couro para proteção da sua pele, mais frágil. O grande problema dos primeiros modelitos de que se tem notícia era que, de modelitos não tinham nada. Eles deixavam grande parte do corpo descoberta, portanto, era preciso dar-lhes alguma forma. Outro problema é que o couro, ao secar, ficava duro. Para resolver o problema, uma intensa mastigação era feita. É isso mesmo, as mulheres esquimós mastigavam o couro do animal caçado por seus maridos.

PERUCAS
EPRODUÇÃOEm 1660, a peruca tornou-se francamente artificial e foi adotada com entusiasmo. Cerca de duzentos perruquiers foram empregados na corte francesa. A corte inglesa demorou um pouco a adotá-las até que a moda foi lançada pelo Duque de York. Era necessário ter o cabelo cortado bem rente à cabeça para que as perucas tivessem um melhor caimento. As perucas dos nobres eram compridas e muito pesadas, mas, mesmo com o incômodo, essa moda durou quase um século. Só homens as usavam, mulheres usavam fitas nos cabelos e faziam penteados cada vez mais elaborados, armados com arames, conhecidos como “cômoda” e “torre”. Essa moda não durou muito e logo foi vista como ridícula. No século XVIII, a partir de 1680, a perruque à crinière, ou peruca comprida, dava o tom de seriedade típica da época. Esse tipo de peruca persistiu até a Revolução Francesa, mas como era incômoda e muito cara, os soldados logo desenvolveram a peruca de campanha, com três cachos, um de cada lado da cabeça. A peruca Ramillies era ainda mais simples – os cabelos eram puxados para trás e amarrados com fitas pretas. Em ocasiões formais, os homens usavam a peruca presa. Os clérigos e intelectuais usavam-na frisada, ao invés de cachos. A peruca preta por vezes era coberta com o pó branco, dando um aspecto grisalho. Podia ser feita de cabelo humano ou de crina de bode e cavalo

Além da pele, as civilizações que viviam em climas temperados descobriam outros tipos de “tecidos”, como o feltro e fibras vegetais

Durante a Idade Média européia, as roupas mantiveram o caráter ritualístico e denunciavam a estratificação social. Cores como o vermelho e o púrpura eram reservadas ao clero e a nobreza enquanto aos servos era recomenda a cobertura quase completa do corpo

Alguns outros processos foram experimentados até que a gordura dos animais marinhos foi usada para amaciar a pele. Em seguida, descobriu- se o curtimento (ainda usado até hoje) através de cascas de árvores como o carvalho e o salgueiro, de onde se extrai o ácido tânico. O resultado são peles maleáveis e à prova d’água – um significativo avanço, pois esse processo permitiu que as peles pudessem ser cortadas e moldadas. E eis que também surgiu a agulha de mão, inicialmente feita de marfim de mamute, ossos de rena e presas de leão marinho, há cerca de 40 mil anos. Mas não era só de pele que se vestia o homem. As civilizações que viviam em regiões de clima temperado descobriam outros tipos de “tecidos” como o feltro (um amontoado de lã prensada) e os feitos a partir de cascas de árvores, extraindo suas fibras, num método muito parecido com o da fabricação de papiro pelos egípcios. Bom, a vestimenta não passava de um retângulo enrolado no corpo, é verdade.

No mundo romano os penteados eram variados entre as mulheres da elite que frequentemente copiavam a moda de regiões conquistadas. Algumas maquiagem e cremes foram preservados até os dias atuais

O que se observa é que, hiperconservadoras,essas sociedades primitivas, inteiramente centradas no respeito e na reprodução minuciosa do passado coletivo, não abriam espaço para novidades ou para o individualismo. Semelhante foi o que aconteceu na Antiguidade – ainda com o aparecimento do Estado e a divisão de classes, no Egito antigo, o mesmo modelo de toga-túnica foi usado por quinze séculos. Na Grécia e em Roma, salvo algumas distinções com relação ao tecido, um outro modelo de toga-túnica também persistiu até o final do Império. Mesmo com as conquistas e influências externas, a imobilidade continuava cristalizada. Nesse sentido, não é fácil definir a história da moda em eras definidas. Só mesmo com o fim do lençolzão enrolado no corpo e os trajes femininos e masculinos, por fim, claramente distintos (gibão e calções para os homens e vestidos longos para as mulheres) é que podemos começar a entender e marcar as primeiras diferenciações nas roupas ao longo dos séculos. (veja linha do tempo

No início do Renascimento o crescente humanismo mesclava-se à burguesia ascendente, que procurava distinguir-se através das roupas. Desse modo, começou a se formar o conceito atual de moda

A PÚRPURA BURGUESA E O PRÊT-À-PORTER
Na história da moda, a lógica da inconstância impera. A moda foi construída em cima de grandes mutações organizacionais e estéticas e não pertence a todas as épocas nem a todas as civilizações. “Ao contrário do imperialismo dos esquemas da luta simbólica das classes, mostramos que, na história da moda, foram os valores e as significações culturais modernas, dignificando em particular o Novo e a expressão da individualidade humana, que tornaram possíveis o nascimento e o estabelecimento do sistema da moda da Idade Média tardia; foram eles que contribuíram para desenhar, de maneira insuspeitada, as grandes etapas de seu caminho histórico”, escreveu Lipovetsky.

histórico”, escreveu Lipovetsky. Se pudermos resumir a história da moda em poucas linhas, podemos demarcar dois momentos importantes. O primeiro é que a moda, de fato, surgiu por volta de meados do século XIV, mais propriamente na Itália renascentista. Antes, as vestimentas tinham um caráter ora hierárquico, ora religioso, ora funcional ou mesmo estético. Mas a moda, como um fenômeno de massa, teve seu início no final da Idade Média. Com a ascensão da burguesia, que tinha dinheiro para gastar e queria se assemelhar com a nobreza, criou-se uma maneira do “se vestir” que tentava “copiar” aquilo que era desejado. Leis suntuárias foram revogadas coibindo o uso de vermelho, púrpura e ouro, mas, como lembra Miti Shitara, “não há lei que barre um indivíduo de querer se assemelhar com aquilo que ele não é, com aquilo que deseja”. E segue: “nesse momento, a moda está ligada a uma mudança periódica, a uma mudança constante no vestuário. Isso sem esquecer das doutrinas renascentistas como o antropocentrismo, ou seja, a valorização do homem, do corpo”. É nesse momento que reconhecemos a ordem própria da moda, a moda como um sistema. Com ela, aparece uma primeira manifestação de uma relação social, a “do novo”. É preciso seguir o que se faz, adotar as últimas mudanças do momento, mesmo que seja uma superficialidade da elite.

As pessoas puderam escolher uma infinidade de modelos em lojas de departamentos e, assim, fazer sua própria moda

ALTA COSTURA E PRÊT-À-PORTER
REPRODUÇÃOAté surgir Charles-Frédéric Worth, em 1858, a elite da sociedade aristocrática mandava fazer suas roupas em costureiras particulares na Paris de meados de século XIX. O surgimento do primeiro “grão-senhor costureiro”, digamos assim, coincide com o nascimento da indústria em grande escala e com a ascensão ao poder de uma nova classe dirigente: a alta burguesia, disposta a gastar e pagar qualquer preço para “estar na moda”. Assim, Worth começou a desenhar modelos exclusivos e sob medida. Não há como negar que foi o primeiro a promover o sistema da alta-costura, mas seu sucessor, Paul Poiret, foi quem alcançou os níveis mais ousados de criatividade e liberou, enfim, o corpo feminino das crinolinas, armações e espartilhos. A imagem da mulher se torna mais natural e os moldes podem ser copiados do Journal des Demoiselles e, depois, da Gazette du Bon Ton, pelas costureiras. Com a Segunda Guerra Mundial e uma Paris que não pode mais servir de espelho para países como Inglaterra e Estados Unidos, há o fenômeno das indústrias, com destaque para as norte-americanas, que começam a produzir roupas em larga escala, as chamadas ready to wear, que mais tarde também fizeram parte da indústria francesa, daí prêt-à-porter, em ambos os casos, “pronta para vestir”. Para um costureiro produzir a chamada alta costura deve ser filiado ao Chambre Syndicale De La Haute couture.

EPRODUÇÃO
Mineiros do início do séc. XX usado a primeira forma de jeans

O segundo momento é que, no cenário da Segunda Guerra Mundial, Paris estava desolada, com sua indústria da alta-costura em baixa por falta de mão-de-obra e de materiais. Tal situação, de certa maneira, obrigou a Inglaterra e, principalmente, os Estados Unidos, a começarem a fabricar suas próprias roupas, seus próprios modelos. Isso resultou no que chamamos de roupas ready to wear ou prêt-à-porter – roupas prontas para usar. Se antes o mundo dependia dos modelos originais dos estilistas franceses, agora outras indústrias se tornam independentes e produzem roupas em larga escala e a um preço módico. Tal fenômeno, com o passar dos anos, fez com que as pessoas pudessem escolher uma infinidade de modelos em lojas de departamentos e, assim, fazer sua própria moda, iniciada nos anos 60, na chamada era do individualismo. E se a moda ainda não parece alvo de objeto de estudo, uma olhada na linha que traz a moda através dos tempos, com certeza, mostra que ela esteve tão arraigada na história quanto qualquer outro costume da sociedade.

 

 

GUARDA-ROUPA
JEANS – Corruptela de Gênes, nome francês para Gênova, cidade portuária da Itália, que acabou batizando as resistentes calças de trabalho usadas pelos marinheiros, confeccionadas de tecido grosso de algodão originalmente fabricado em Nîmes, na França. Em 1850, Levi Strauss lançou o jeans de brim em São Francisco, Califórnia, como roupa de trabalho para mineradores de ouro. As calças azuis entraram na moda nos Estados Unidos na década de 50. Desde então, diversos modelos foram feitos ao longo dos anos até chegarmos à moda atual: jeans com lycra, apertado a ponto de parecer uma legging. REPRODUÇÃO

GRAVATA – Começou a ser usada no século XVIII, como uma tira larga, drapeada ou entrelaçada sobre o peito. A versão estreita, usada sob o colarinho da camisa, desenvolveu-se no final do século XIX, transformando-se em uma peça essencial do guarda- roupa masculino.

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SUTIÃ – Data de 1900. Até meados dos anos 20, os sutiãs não possuíam barbatanas e destinavam- se a achatar o busto e empurrá-lo para baixo. Só por volta de 1925 é que foram colocadas alças ajustáveis e uma divisão entre os seios. A Kestos Company of America fabricou um sutiã com dois tecidos triangulares e um elástico que cruzava nas costas e era abotoado na frente. Os modelos com diversas numerações foram feitos na década de 30 e, nos anos 40, os enchimentos deram forma aos modelos. Na década de 50, seu formato era exagerado, armados com arames, para endurecer o seio. Na mesma década, começaram a ser confeccionados sutiãs para adolescentes. Nos anos 60, com a utilização da lycra, os sutiãs passaram a ser muito mais confortáveis. Hoje, existem sutiãs que nem mesmo costuras têm. REPRODUÇÃO
MACKINTOSH – Não é o que você está pensando, mas é da mesma família. O mackintosh foi um casaco à prova de água desenvolvido no decorrer do século XIX. Em 1823, o químico escocês Charles Macintosh patenteou um tecido de lã impermeável. Dezesseis anos depois, Charles Goodyear, dos EUA, lançou a borracha vulcanizada. Os primeiros modelos do final do final do século XIX eram peças volumosas, que iam do pescoço ao tornozelo e destinavam-se a manter a pessoa completamente seca. No século XX, a moda adaptou o machintosh para diversos modelos, inclusive o trenchcoat civil e a capa de chuva. Misturas de algodão e (mais adiante no século) misturas sintéticas foram usadas para fazer casacos impermeáveis. Também conhecido como mac.

A moda através do tempo

PALEOLÍTICO E NEOLÍTICO

100 mil a.C – Vestimentas feitas de peles de animais. Protegem o homem do frio, não tendo uma função estética ou mesmo de pudor. As mulheres esquimós mastigavam as peles para amaciá-las a fim de moldá-las. Mas quando a pele secava, o efeito desaparecia.

40 mil a.C. – Passam a usar óleo ou gordura de animais marinhos nas peles e, logo depois, ácido tânico extraído da casca do carvalho (conhecido como curtimento) que faz com que fiquem maleáveis permanentemente e à prova d’água. Surgimento da agulha de mão, 40 mil anos atrás. As roupas podiam ser cortadas e moldadas.

10 mil a.C. – Os povos de climas temperados prensam lã e fazem o primeiro tipo de tecido, no método conhecido como feltragem. Ainda assim, a vestimenta é um mero retângulo que se enrola no corpo.

No Neolítico, há o surgimento dos teares manuais. Isso faz com que tecidos possam ser produzidos em uma escala maior e mais eficiente. Tal fato abre caminho para o desenvolvimento das roupas como as que conhecemos atualmente.

SÉCULO A . C. AO SÉCULO VI A . C.

REPRODUÇÃO2000 a.C – Estatuetas da antiga civilização suméria da Mesopotâmia. Saias em tufos, com aparência de babados.

Roupas drapeadas eram a marca da civilização. Roupas que moldavam o corpo eram consideradas “bárbaras”. Tufos e franjas faziam a cabeça dos babilônicos e assírios enquanto, no Egito, o sarongue era a febre do deserto! E é lá mesmo onde as roupas começam a ter uso na distinção de classes.

Nessa linha do tempo, observa-se que, num período de 3 mil anos, as mudanças no vestuário foram mínimas, quase estáticas.

No Antigo Império, o traje característico era o chanti, um pedaço de tecido usado como toga e preso por um cinto. Os egípcios usavam roupas de linho fino, mais fácil de lavar (eram muito higiênicos) e também porque fibras de animais eram consideradas impuras.

REPRODUÇÃO1750 a . C. a 1400 a . C. – Civilização cretense: tinham paixão por roxo, vermelho, amarelo e azul. Muitas jóias, colares de lápis lázuli, ágatas a pérolas. Exibiam exímia cintura, provavelmente conseguida com o uso de um anel rígido desde a infância.

1200 a . C. – Lei Suntuária assíria: mulheres casadas são obrigadas a usar véus em público.

550 a.C. – Persas dominam Babilônia e trazem costumes como o uso de calças, botas e chapéus, além da seda, trazida da China.

GREGOS E ROMANOS

Séc. V a.C. – A vestimenta clássica era o quíton (aquele lençolzão), que poderia ser amarrado de diversas maneiras. As roupas gregas não eram brancas como supomos pelas estátuas – que perderam sua cor com o passar do tempo – e sim muito coloridas e até mesmo estampadas, exceto as usadas pelos pobres.

Os gregos não tinham vergonha da nudez, os exercícios físicos eram praticados no ginásio e, geralmente, com todo mundo nu (esse é o significado da palavra ginásio). Os romanos usavam trajes sumários que lembravam roupas de banho. Leis suntuárias procuravam restringir o luxo dos trajes femininos.

Os sapatos eram raros, usavam sandálias de tiras com amarras diversas. As das cortesãs podiam ser folheadas a ouro e com pregos na sola que formavam a palavra “siga-me” nas pegadas.

Séc. III a.C. – Togas: Usadas pelos soldados e pelos meninos (toga praetexta, com um um bordado roxo) trocada em cerimônia da puberdade pela toga virillis (branca). Em determinadas ocasiões, ela era escura e, em 100 d. C. a toga diminui de tamanho, vira um pallium e, logo depois, uma mera estola.

Túnicas: Dalmática, vestimenta cristã. Também existia a túnica palmata, toda bordada, a subacula usada com a extefunriodum e a caracalla, mais longa. Também usadas por soldados que, gradualmente, passaram a usar calças, usadas inicialmente por povos invasores.

Séc. I d.C. – Rebuscamento dos penteados que eram enrolados com pinças quentes por uma ornatrix, uma cabeleireira, digamos assim. Os cabelos também podiam ser descoloridos e começa o uso de perucas e postiços. Usavam-se cada vez mais adornos e jóias.

330 d.C. – Constantino funda Bizâncio, ou Constantinopla.

SÉCULO VI
Auge do vestuário bizantino. Os trajes imperiais têm um ar eclesiástico, o imperador era um rei-sacerdote, o vice-rei de Cristo na Terra. As roupas são hierárquicas e não têm função de seduzir, tampouco de ser úteis. A lã foi substituída pelo linho, algodão e seda. Bichos-da-seda são trazidos do Oriente num esquema seria primeiro caso de espionagem industrial. A imperatriz Teodora teria enviado dois monges à China para trazerem dentro de uma bengala oca, alguns bichos-da-seda. Assim, Bizâncio tornou-se capaz de fiar seu próprio tecido. Orientalização cada vez maior nas vestes bizantinas. Fim do Império Romano ocidental, em 476 d. C.

A EUROPA MEDIEVAL
Mudanças no vestuário com as invasões bárbaras pelas novidades trazidas do Oriente pelos soldados das Cruzadas. Os trajes medievais masculinos consistiam em espécies de bermudas e meias que subiam até os joelhos. Por cima, uma espécie de camisa com capuz para os camponeses, ou um chapéu. As vestimentas femininas (da classe alta) mostravam um corpete bem justo e uma saia ampla com pregas até os pés. Também eram usados véus ou a barbette (tecido preso ao queixo). Trajes comuns eram as chamadas côte-hardie (sobretúnicas) e a houppelande (beca).

Roupas femininas têm um apelo erótico devido ao decote que levanta o busto. Penteados em estilos diversos tais como o coniforme (quadro de Jan van Eyck), chifre, fillet, barbette, almofada, temporais (à la princesa Léa), à cornes, coração, borboleta, campanário, turbante, vaso de plantas e chaminé – como o nome já diz. Essa moda foi muito popular até 1485.

O casamento de Giovanni Arnolfini e Giovanna Cerami, de Jan van Eyck, 1434. Na segunda metade do século XIV, podemos definir um estilo de se vestir influenciado pelo que chamamos de MODA.

Gibão: principal peça usada, podia ser tão curto que era necessário o uso do codpiece, para tapar a abertura na frente dos calções masculinos. A côte-hardie é substituída pela jaqueta cada vez mais justa e almofadada nos ombros.

Durante o século XV, o uso de chapéus é cada vez maior e passa a existir uma infinidade de modelos.

Sapatos: de bico levantado (conhecidos como crackowes e poulaines). Foi uma moda exagerada, até 1410. Um decreto de Eduardo III trazia uma lei suntuária que dizia: “nenhum cavaleiro com o título de lorde, escudeiro ou cavalheiro, ou qualquer outra pessoa usará sapatos ou botas com pontas excedendo o comprimento de cinco centímetros, sob pena de multa de quarenta pence”. Mas, como todas as outras, foi totalmente ineficaz.

REPRODUÇÃORENASCIMENTO E SÉCULO XVI
Itália: moda totalmente diferente do restante da Europa. Invasão de Carlos 18 e influência francesa. Inglaterra de Henrique VII e VIII, moda dos Tudors.

Germanismo influencia França e Inglaterra. Uso de muitos recortes nas roupas.

Na tela de Holbein, Henrique VIII é ilustrado com riqueza de detalhes e esbanja a moda da nobreza do século XVI. Ombros largos, codpiece à mostra, jaquetão com manga bufante, beca folgada sobre os ombros e caindo em pregas amplas. Seus sapatos são largos, chamados de bico-depato, com recortes, e adornados com jóias. Ele também usa o chapéu estilo boina. Até então, era comum raspar a barba, mas, em 1535, o rei cortou seus cabelos e disse que sua barba não seria mais raspada. Henrique VIII gostava de usar veludo azul e vermelho, bordados em ouro, rubis e pérolas.

Os trajes camponeses não eram tão suntuosos, mas uma peça básica a quase todos era o schaube, um sobretudo com o formato de uma batina. Lutero usava e assim estabeleceu-se o traje do clero luterano até hoje.

O domínio alemão da moda européia, com cores quentes e vibrantes, deu lugar à moda espanhola sombria e ajustada, em parte, por gosto pessoal do imperador Carlos V. E quem diria, até Henrique VIII seguiu essa moda! Assim foi até o final do século. O principal elemento hierárquico da nova moda era o rufo; acima da gola alta do gibão, mantinha a cabeça erguida, em atitude de desdém. Significava que aquele era nobre e não precisava trabalhar.

REPRODUÇÃOMEADOS DO SÉCULO XVI
Figura marcante, a Rainha Elizabeth costumava abrir a parte da frente do rufo para mostrar o colo, em uma atitude de se mostrar atraente e chocou ao tingir os cabelos de vermelho.

Saia fathingale: ficou mundialmente conhecida. Era aquela, bastante retratada, usada sobre uma armação de arame que fazia parecer que a mulher estava vestida com uma fantasia típica de boi-bumbá, fazendo uma associação não muito coerente.

SÉCULO XVII
Ainda sob influência espanhola, mas com modificações como o fim do rufo (só permaneceu na Holanda). Menos afetação. Leis suntuárias de Henrique VI, da França, tentavam evitar a importação de tecidos caros.

A vestimenta feminina torna-se mais simples já que o corpo não precisa ser deformado por espartilhos a pela pesada farthingale. Agora consiste em corpete, anágua e beca. Mas na Holanda, a moda continuava austera, típica de seu protestantismo. Os ingleses passaram a copiá-la inclusive deixando os cabelos bem curtos (daí o apelido dos homens do Parlamento inglês de round heads, cabeças redondas).

REPRODUÇÃOOs trajes masculinos e femininos sofrem reviravoltas de estilos na França e Inglaterra. Caem de certa classe já conquistada para o desleixo ou o exagero. Até que Carlos II abandona o exagero francês e passa a usar novamente roupas mais sóbrias e finas, adotadas solenemente.

É claro que o mesmo não acontece na França, com Luís XIV, conhecido com Rei-Sol. Ele, por sua vez, obriga que seus criados e os nobres usem túnicas. Estas, bem mais tarde, ficaram mais curtas e se tornaram coletes. Até hoje, alfaiates ingleses se referem ao colete como vest (túnica).

Essa moda persa, das túnicas, foi então o ancestral da roupa moderna. A túnica virou colete e o sobretudo que se usava sobre ela, virou o paletó. Podemos até dizer que o plastrom, espécie de renda usada em substituição ao rufo, parecia-se com as golas caídas, usadas anteriormente. Os plastrons tinham alguns modelos como o point de France e o point de Venice, carérrimos. Talvez, um ancestral das gravatas.

O domínio alemão da moda européia, com cores quentes e vibrantes, deu lugar à moda espanhola sombria e ajustada, em parte, por gosto pessoal do imperador Carlos V. E quem diria, até Henrique VIII seguiu essa moda! Assim foi até o final do século. O principal elemento hierárquico da nova moda era o rufo; acima da gola alta do gibão, mantinha a cabeça erguida, em atitude de desdém. Significava que aquele era nobre e não precisava trabalhar.

Perucas (ver quadro) e chapéus faziam a cabeça dos nobres. Os modelos mais comuns eram o commonwealth e o tricórnio. Curiosamente, eram usados em ambientes fechados e até durante as refeições. Ambos eram o símbolo da extrema formalidade no trato dos últimos anos do século XVII.

SÉCULO XVIII
Corte de Versalhes. Roupas femininas mais confortáveis, contudo, feitas com tecidos ricos e volumosos dando um aspecto de seriedade. Essa mudança se deu após a morte de Luís XIV, em 1715.Essa nova forma de se vestir era chamada de sack ou saque, e até mesmo de “prega de Watteau”, pois as mulheres pintadas por ele usavam tais vestimentas.

A volta dos arcos nas saias chegava a quase 4,5 metros de largura e eles eram feitos de barbatanas de baleia. Essas estruturas eram chamadas de panier (cesta). A moda masculina consistia em casaco, colete e calções e meias compridas. Em 1740, junto com o plastrom, usa-se o stock, um pedaço de linho afivelado atrás do pescoço ou a gravata preta conhecida como “solitária”.

A partir de 1760, há uma mudança que implica em uma tendência ao uso de roupas mais simples e práticas. O chapéu tricórnio começa a ser substituído e observa-se um esboço da cartola do século XX. Em contrapartida, os penteados femininos atingiram sua altura mais exagerada chegando a um metro de altura. Eles eram fixados com pomada e ficavam intocados por meses. Aquelas mãozinhas de marfim que os antiquários vendem como coçadores de costas eram na verdade usados para coçar aquelas cabecinhas já infestadas de piolhos.

Em 1770, houve uma alteração marcante no vestuário feminino. Do panier para a anquinha, que fazia a parte de trás da saia mais alta com corpetes justos e decotados. Uma maior variedade nas roupas foi observada. De fato, toda a roupa usada no Antigo Regime começa a ser erradicada.


REVOLUÇÃO FRANCESA
Não existiam mais perucas, cabelos empoados nem casacos bordados. O lema era simplicidade. Houve um abandono das roupas da corte e uma aceitação das roupas de campo inglesas. Foi uma verdadeira anglomania até que, com o fim do Terror, os nobres que tiveram seus pescocinhos salvos da guilhotina, trataram de empoar aquela roupa simplezinha. Ainda assim, as roupas eram infinitamente mais simples. Para os homens, o traje era tipicamente inglês, com cartola, fraque de tecido liso, lapelas e escarpins. Para as mulheres, vestidos Império.

1800 a 1850 – Pouca roupa, influência do estilo clássico. Volta dos rufus e moda de xales. Orientalismo trazido pelas expedições de Napoleão. Uso de roupas feitas por alfaiates ingleses como a casimira, essência do dandismo. Em 1930, o romantismo estava a todo vapor, influência de uma moda elisabetana, com direito a rendas e babados. O guarda-sol, todo adornado, também era um acessório importante – mas que raramente era aberto, pois não conseguiria cobrir os imensos chapéus. Nos últimos anos, observa-se uma moda bem mais modesta. Todas as roupas vistosas, masculinas e femininas, começam a ser consideradas deselegantes até a moda vitoriana alcançar aceitação total.

1850 a 1900 – A efervescência da “ano das revoluções” (1848) foi o triunfo da burguesia. Voltam inúmeras anáguas e a quantidade de roupas faz a mulher praticamente desaparecer. As saias voltam a ser imensas e o exagero reina absoluto. A crinolina é uma espécie de panier, tão larga quanto, e passou por diversas modificações ao longo desses anos.

Primeiros estilistas e haute couture. Antes, um estilista era um alfaiate humilde que visitava mulheres em suas casas. Agora, M. Worth, apesar de ser inglês, em dez anos se tornou o maior ditador da moda parisiense. Foi, de fato, o primeiro estilista de alta costur (figura).

No final da década, foi lançado um traje tricotado, desenhado por Mrs. Langtry, o “Lírio de Jersey”, ficando, portanto, conhecido como o “vestido de jérsey”. A anquinha ressurge em diversos modelos.

Traje Racional: Movimento de 1880 que tinha defensores tais como Oscar Wilde que propunham o fim de peças desnecessárias nas roupas. Apesar do escárnio inicial, o movimento teve êxito. As mulheres começavam a ter uma vida mais ativa em que o espartilho de nada aliviava e os homens continuaram usando fraques, casacos, ternos e uma infinidade de modelos de paletós. O uso de roupas confortáveis para a prática de esportes também foi uma inovação, principalmente o vestido bifurcado para as moçoilas ciclistas, chamados de bloomers. A era vitoriana estava chegando ao fim.

1900 a 1939 – O período que vai do início do século ao princípio da primeira Grande Guerra foi chamado de belle époque na França e eduardiana na Inglaterra, e corresponde à década de 20. Época de grande ostentação e extravagância. Rendas, plumas e vestidos de chiff on, mousseline e tule.

REPRODUÇÃOEm 1913, as blusas femininas traziam uma abertura em V na frente e foram chamados de “blusa pneumonia”. Os vestidos eram mais confortáveis como vemos na moda do pré-guerra.

Já no pós-guerra, em 1925, veio o escândalo das saias curtas. Foram condenadas e o arcebispo de Nápoles chegou a afirmar que o recente terremoto ocorrido em Amalfise devia à ira de Deus contra uma saia que cobria apenas os joelhos. Leis suntuárias foram criadas nos Estados Unidos, mas tudo foi em vão.

Um novo tipo de mulher passa a existir. O estilo andrógino era a febre. Cabelos curtos, roupas sem silhueta aparente e o uso de chapéu clochê eram comuns. As meninas quase não se distinguiam dos rapazes.

O talento revolucionário da época foi Coco Channel. Assim como ela, outra mulher também teve destaque no mundo da moda, a estilista Elsa Schiaparelli.

No final da década de 20, volta da saia comprida. Casacos de pele estão em voga. No final da década, com a Depressão americana e a ascensão de Hitler, os cabelos voltam a crescer e o chapéu clochê é renegado. Na década de 30, o ideal feminino está na figura das atrizes de cinema como Greta Garbo. Os vestidos trazem decotes nas costas e, na mesma época, surgem os primeiros trajes de banho.

DEPRESSÃO E SEGUNDA GRANDE GUERRA
Aumenta a semelhança entre as roupas de diversas classes. As grandes casas de Paris ficam ao alcance de quase todas as mulheres. Antes de 1930, era hábito entre os americanos comprar dúzias de cada modelo e revendê-los para uma clientela abastada. Mas, após a Depressão, as autoridades americanas criaram impostos altíssimos, cerca 90%, sobre o valor de cada peça original. Os chamados toiles eram modelos cortados em linho e que traziam as instruções para a sua confecção – estes eram isentos das taxas, portanto, o que aconteceu foi que era possível fazê-los e vendê-los por um preço mais acessível.

Bem perto do início da Segunda Grande Guerra, houve um retrocesso à moda romântica. Como analisou C. Willett Cunnington, em English women´s clothing in the present century, “nunca a moda foi tão irônica quanto nessa tentativa de reviver, para um vestido de noite, a moda que se usava às vésperas da guerra franco-prussiana”. Houve até uma tentativa da volta da crinolina, algo que não fazia o menor sentido em pleno século XX. Já os vestidos para o dia mostraram uma tendência oposta – a saia era mais curta e franzida no estilo camponês. Os estilistas, ainda confusos, continuavam a apostar que não haveria guerra. Quiseram até trazer de volta a moda dos espartilhos. A moda vivia um momento de total confusão, não existia padrão, quase não existia um estilo predominante. No caso masculino, o terno era usado regularmente, com algumas modificações e modismos passageiros das calças.

No verão de 1939, um repórter da Vogue comentou: “nada varia mais do que a silhueta. Você pode ter a aparência tão diferente de sua vizinha quanto o sol e a lua – e ambas estão certas. A única coisa que vocês precisam ter em comum é uma cintura fina, apertada, se necessário, por espartilhos muito leves com barbatanas. Não há silhueta em Paris que não se afine na cintura” (em A roupa e a moda, de James Laver). Mas isso de nada adiantou. As grandes casas de Paris lançaram suas coleções habituais na primavera de 1940, num clima de “guerra de mentira”; parecia que ninguém percebia que a guerra não era uma idéia absorta e sim um diagnóstico sem remédio.

A ERA DO INDIVIDUALISMO
No momento da Segunda Guerra Mundial, Paris conseguiu enfrentar o desafio dos tecidos escassos e da mão-de-obra limitada. A faltade materiaisea necessidade de se fazer roupas cada vez mais baratas.

O cuidado com a fabricação das mesmas não mudou. As mulheres se enfeitavam com lenços, mudavam o corte dos cabelos e usavam maquiagem. Mesmo em uma época tão difícil, o glamour teimava na terra da moda. Nos Estados Unidos, as roupas continuaram seguindo a mesma linha do pré-guerra, mas conseguiu-se espaço para inovar: as saias tinham aberturas e eram usadas com meias de náilon e sapatos de salto alto de couro brilhante. Essas roupas causavam inveja às européias.

A guerra mudou irrevogavelmente toda a estrutura da indústria da moda. Isso porque, durante a guerra, costureiros americanos e ingleses já não podiam mais se inspirar em Paris – os que lá estavam não tinham mais liberdade alguma de expressão e, os que permaneceram durante a ocupação, costuravam para os alemães. Em 1945, a exposição Le theatre de la mode, no Musee de Arts Décoratifs, teve o apoio de nomes como Dior e Givenchy. Ali, se mostrava o quanto esses estilistas e o próprio governo estavam empenhados em restabelecer a alta-costura em Paris.

Com isso, Paris voltava a ser o centro da moda, mas a Inglaterra e, principalmente, os Estados Unidos, já possuíam uma indústria de moda independente. É lá mesmo que se inicia a fabricação nacional de roupas para a massa, o que chamamos de ready to wear. Como a moda, depois de uma crise, tende a “reviver” momentos anteriores à crise, a saia drapeada dos anos 30 volta e, com ela, a cinturinha fina. O chamado new look, de Dior, de 1947, baseava-se em modelos de 1860 e também enfocou essa atmosfera. A roupa masculina foi afetada pela mesma nostalgia e os alfaiates passaram a produzir um look “eduardiano”, da década de 20.

Após o new look, seguiram-se dez anos de intensa atividade na moda liderados principalmente por Dior até sua morte repentina em 1957. A atmosfera da Paris dos anos 50, com o fim da escassez de cosméticos, estava totalmente focada na beleza. Tanto nos modelos quanto na maquiagem que deveria ser perfeita, com direito a sobrancelhas arqueadas e bocas muito bem desenhadas. O luxo predominava na forma de peles, cachemiras e jóias.

EPRODUÇÃOAs jovens procuravam inovar e fazer sua própria moda. Passaram a usar calças cigarrete, inspiradas no sportswear americano, sapatilhas baixas e jeans. Começaram a surgir a moda dos astros de música e a moda das gangues de rua. Assim, a indústria se viu na necessidade de fazer roupas que acompanhassem o estilo jovem. A indústria do prêt-à-porter na França tal qual o ready to wear dos Estados Unidos ganhavam cada vez mais força. Assim, na década de 60, pela primeira vez a moda começou a se concentrar nos adolescentes. Os modelos mudavam tão depressa que os fabricantes tinham difi- culdades para renovar os estoques. Era um momento de ruptura e rebeldia também observado na arte com a pop art, na música, na literatura e no cinema.

1960 a 1970 – Recapitulando: as roupas da década de 40 enfatizavam a cintura e o busto, na década de 50 foram os quadris e na de 60 as roupas revelaram uma nova tendência: duras e geométricas, eram eróticas no quanto desnudava o corpo. Minissaias, modelos da era espacial, botas de cano alto, metais, plástico, tudo estava sendo experimentado. Do ultrapsicodélico e geométrico ao retrô da década de 40, o romântico e o oriental. Lojas famosas como a Biba, abarrotada de looks retrô e acessórios, levava os jovens à loucura. No final dos anos 60, a atmosfera começa a mudar. Floresce o flower power hippie e, com ele, os jeans bordados e com aplicações de flores. As calças boca-de-sino, as camisas com estampas indianas e os cabelos compridos não deixam nem os Beatles de fora. Era a moda misturada com um estilo de vida singular que afetava os jovens de diferentes formas. Com as mudanças sociais do início dos anos 80, veio também uma simplificação maior das roupas, focadas, num primeiro momento, para roupas de trabalho, tanto para homens quanto para mulheres.

Não demorou muito para que as cores fluorescentes e o new wave (como eram chamados os conjuntos punks e, pouco depois, o gel com glitter) fizessem a cabeça dos jovens. O estilo punk sai do gueto e toma as passarelas, inspirado no Hell’s Angels. A filosofia punk também influenciava o mundo da música. Mais do que tudo, a moda não passava de peças de calças, saias e jaquetas com cortes e cores berrantes, mas com o diferencial de que as mulheres conheciam tanto mais de moda que podiam criar seus próprios looks sem ter que se render aos apelos de uma altacostura, tal qual como era conhecida até então, totalmente extinta. Estilistas como Calvin Klein e Ralph Lauren fazem sucesso. Na década de 90, o estilo foi quase que baseado na década de 80, mas sem os exageros e cores chamativas. A partir daí, a moda dá seu novo salto, com coleções de diversos estilistas – não só internacionais como brasileiros também.


REFERÊNCIAS
LAVER, J. A roupa e a moda. Ed. Companhia das Letras.
LIPOVETSKY, G. O império da efêmero. Ed. Companhia das Letras.
VINCENT-RICARD, F. As espirais da moda. Ed. Paz e Terra.
O’HARA, G. A enciclopédia da moda. Ed. Companhia das Letras.

LETÍCIA DE ALMEIDA ALVES é jornalista e escreve para esta publicação